Outros Temperos

Quando penso no crescimento que as pessoas fazem nas suas vidas, lembro-me de Fernando Pessoa e da frase que ele dizia, qualquer coisa como - "consigo viajar sem sair do meu quarto" e pensava que havia qualquer coisa de errado nesta frase. É que vivermos da imaginação tem muitos perigos...
Hoje encontrei este blogue e este texto que me fez pensar no meu crescimento interior:
O meu Big Bang pessoal deu-se aos trinta e quatro anos de idade. Com a maternidade. Não porque fosse um sonho tornado realidade, porque nem sei se seria bem um sonho. Além de que a maternidade trouxe também consigo um peso, tão grande, tão grande que às vezes até me faz esquecer as coisas boas. Mas depois vem aquele abraço forte dos filhos e tudo, mas tudo, fica para trás. Mas nada volta a ser igual e vem-me à cabeça as palavras do Miguel Sousa Tavares "o mundo divide-se entre os que têm filhos e os que não têm". Nada pode ser mais verdadeiro. Ter filhos é conhecer um circulo diferente todos os dias. É ser surpreendido ou apanhado na teia todos os dias. São universos e universos novos que se vão abrindo até arrebentar de alegria ou de tristeza. São os opostos. É muito dificil explicar isto a quem não tem filhos ou simplesmente aos homens. Eles compreendem e sabem. Mas não sentem o turbilhão de emoções que arrasta uma mãe.
Os mais sábios até nos presenteiam com pérolas do género "então estás mais gordinha", ou "então já não sais à noite", ou "as mulheres depois de terem filhos deixam de se cuidar", coisas deste género. À maior parte fui acenando com a cabeça, de outras partes fui-me afastando.
Exigem tantas coisas à mulher, ufa. Que tenha um trabalho cool, que seja magra, que tenha a casa sempre apresentável, se for boa cozinheira ainda melhor, que saiba cuidar dos filhos, que ainda tenha tempo e disponibilidade para o marido de sorriso na cara. E às vezes até são os mais próximos que nos surprendem com exigências hercúleas!
A partir do momento em que se deu o meu Big Bang cresceu-me uma corcunda que transporta todo o peso do meu círculo às costas. Tenho medo de ficar presa a certos círculos. Isso assusta-me, fujo de ser a "mulherzinha" que os outros falam... Revolto-me contra os rótulos que me colocam. Às vezes até fujo de mim própria. Depois leio estes textos e penso que os meus círculos têm crescido tanto, mas tanto. Mas por vontade própria. Porque recuso-me a não participar na vida. Recuso-me a ver a vida a passar ao lado, porque tento conhecer mais e mais e mais. E quando estou quase rota de tanto cansaço ainda tenho espaço para ir um bocadinho mais longe. E não, não estou arrependida. Mas também não sou mais a mesma. Quanto a ser "mulherzinha", se ser mulherzinha é ir para frente e passar horas a passar a ferro, limpar a casa, forrar gavetas, pintar berços, etc, sim, sou mulherzinha. Se sou mulherzinha porque gosto de bordar e fazer quilting, sim sou mulherzinha. Se sou mulherzinha porque depois de um dia de merda no trabalho, chego a casa e aturo a má disposição do outro, as birras do filho e ainda tenho paciência para estar a fazer um trabalho até às duas da manhã para a Universidade, num dia em que três dos computadores que temos em casa decidiram não funcionar, sim sou mulherzinha. Sou mulherzinha em muitas coisas, mas também sou muito mais que isso, sobretudo sou um ser insaciado e quantos aos outros e aos seus rótulos façam o favor de ir à merda.

3 Comments:
Continuo a adorar a forma como escreves
where 're you?
Que maravilha! Mas porque é que não há mais gente a dizer isto? Beijos grandes, prima, adoro-te!
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